Ética e Amizade Pública na Política*
Nestes tempos de política eleitoral, em que as paixões afloram e se acirram, muitas vezes esquecemos as origens do significado da palavra política.
Para os gregos antigos, política era arte de viver entre amigos, na polis, na cidade.
Polis é ao mesmo tempo o múltiplo, daí polímetro, muitas medidas, polígamo, muitos amores, e cidade, lugar em que se vive junto ao múltiplos, aos iguais e aos diferentes, junto aos outros que marcam espaços que vão além de mim mesmo. Na cidade, a vida só ganha sentido diante do outro que junto comigo marca o múltiplo.
Viver na cidade, portanto, exige a arte da política, isto é, a arte de construir a harmonia capaz de congregar os múltiplos que compõem a polis.
Como base desta congregação existe um cimento, uma pilastra, uma ponte, que ao mesmo tempo liga e torna indissolúvel o laço de união daqueles que vivem na cidade, esta base, este laço é a AMIZADE. Não esta amizade do compadrio, privada, do particular, tão marcante nas relações de nós latinos, aquela amizade que encontramos na nossa varanda, em que se troca segredos, favores, confidências.
Ao contrário, trata-se da AMIZADE PÚBLICA que une cada cidadão da polis a um destino comum, amizade marcada pela ausência de segredos, em que o diálogo é público e na qual a convergência de interesses é construída sob o manto do altruísmo qualificado pela renúncia dos interesses privados em prol dos interesses maiores da sociedade.
Esta amizade pública, exigida para a vida na cidade e imperiosa para a vida política na cidade, impõe uma ética toda própria capaz de servir de âncora para a manutenção e aprimoramento do laço social que une todos ao destino da cidade. Trata-se de uma ética pública. Uma ÉTICA DA VIDA POLÍTICA PÚBLICA, cujo esteio é a amizade pública que une aqueles que vivem na cidade.
Esta ética é pública e, portanto, seu agir se dá nos espaços públicos, na praça, cujo exemplo máximo se dá, nos dias de hoje, em nossos comícios que são os momentos nos quais a população pode ouvir e falar com e sobre aqueles que pretendem contribuir, via eleição, para o aprimoramento da vida na cidade.
Sendo pública, ela é, em conseqüência, UMA ÉTICA DA TRANSPARÊNCIA, nela não há lugar para segredos, maquinações, pactos ocultos. No espaço da política, a ação de homem público deve ser transparente, levando ao eleitor, seu par, um traço de sinceridade que marca as verdadeiras amizades. Ganhar ou perder passa a não ser o mais importante. O homem público transparente ganha, com sua sinceridade, o respeito de todos os pares e, com seu exemplo, passa, pedagogicamente, a marcar as ações dos outros.
Como toda amizade, ela é uma ÉTICA ALTRUÍSTA, marcada pela renúncia aos interesses próprios em nome dos interesses comuns que nos ligam aos amigos. O verdadeiro amigo, aquele que ama a cidade, sabe renunciar aos próprios interesses em prol da coletividade.
Como toda amizade, ela é uma ÉTICA DA PRUDÊNCIA. O verdadeiro amigo sempre tem uma palavra de sabedoria, de experiência, de exemplo e de conselho para os momentos difíceis. Quando a hesitação ou o erro distanciam a todos, o amigo, cidadão, vereador, prefeito, médico, professor, estudante, sempre pode ofertar uma palavra de prudência que vise retornar todos ao correto caminho a ser trilhado na construção do bem comum.
Esta fala, esta palavra exige diálogo, e eis que como toda amizade, a ética política exige ser uma ÉTICA DO DIÁLOGO, forte pelo respeito à fala do outro. No campo da política a fala do outro deve ser respeitada e acima de tudo incentivada. A dialética entre situação/oposição na verdade é imprescindível para ofertar a voz da prudência, do meio termo. Esta dialética só ocorre quando se ouve a voz do outro, quando o outro é reconhecido como legítimo participante do diálogo pois, em última instância, ele é também um membro da cidade.
Como toda amizade, entretanto, a política não pode agradar a todos, é preciso decidir, é preciso escolher. Ela também é uma ÉTICA DA DECISÃO. No trato com a política é preciso contrariar alguns interesses, pois nunca é possível contemplar todas as necessidades. É preciso firmeza nas decisões. Assim não é bom amigo aquele que se omite em decidir na esperança de a todos agradar. Longe disto, tal prática gera insegurança, já que a não decisão gera intransparência, e a intransparência não é uma qualidade da verdadeira amizade.
Enfim, já concluindo, a ética na política exige acima de tudo a amizade, amor à coisa pública.
Exige uma amizade que dialoga como os outros, que é transparente e altruísta, que revela a verdade de sua ação pondo os interesses do todo acima dos interesses do particular. Que é firme em suas decisões, que aponta os caminhos da correção, mas que constrói estes caminhos numa prática plena de prudência alcançada após um debate exaustivo em que o diálogo com o outro, a dialética situação/oposição não se mostra excludente, mas, antes, congregadora de todos os amigos que somos da cidade, pois só nela é que a vida pode ser boa. Como disse Aristóteles, isolado, o homem ou é animal ou é gênio, como nós não somos animais nem gênios, só nos resta vivermos em comum, só nos resta construir nossa amizade nos espaços públicos da cidade, dialogando, tornando-nos mais experientes e prudentes, para que quando tomarmos as decisões difíceis o façamos em busca do bem comum.
Que o Brasil como um todo, Minas Gerais e, em particular Governador Valadares possam, em outubro próximo, realizar o espetáculo das eleições como um marco da AMIZADE PÚBLICA que nos une como cidadãos a um só destino que é vivermos juntos na cidade e pela cidade.
Autor: Rosângelo Rodrigues de Miranda. Doutor em Direito pela PUC-SP, Professor de Direito Constitucional na FADIVALE, é Promotor de Justiça pertencente aos quadros do Ministério Público do Estado de Minas Gerais com exercício em Governador Valadares, e está exercendo simultaneamente funções eleitorais junto à 2º Promotoria de Justiça. Fórum de Governador Valadares/MG-Brasil.
*Texto escrito e publicado na imprensa por ocasião das eleições municipais ocorridas no Brasil em outubro de 2008.
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